terça-feira, 23 de março de 2010

Tormento

Uma vela. Eu estava sob sua luz, estava fixada em sua chama, estava seguindo o choro de sua cera e sentindo dor... dor... dor... dor... dor... dor... uma dor que me incomodava cada vez mais e me guiava por toda aquela sala, sentindo cada movimento, sentindo cada vulto, sentindo mais ainda a minha dor.
Um toque em meu braço me fez mudar de rumo, senti aqueles dedos perfurando minha pele e quando achei que não podia piorar, aqueles mesmos dedos apagaram minha fonte de luz, fiquei indefesa diante de tamanha morbidez e escuridão.
Apaguei. Quando dei por mim estava diante daquela luz novamente, me encontrava de joelhos no chão de madeira, eu estava toda contraída, com as mãos entrelaçadas e os cabelos aquecendo na proximidade do fogo. Eu rezava e rezava, junto com ela, a menina de cabelos lisos que se encontrava na mesma situação que eu.
Percebíamos que algo de ruim ia nos acontecer, esperávamos com angústia um toque para o fim dessa agonia, para o fim dessa vida. Nossa reza aumentava quando ela deu um grito. Ele estava lá, a puxava pelos lisos cabelos e a levava para a escuridão total. Não tive coragem de olhar, de reagir, fui fraca, estava fraca, sou fraca.
O grito aumentava, eu sofria por ela, sofria por mim, a dor que havia sentido estava voltando com toda força, meu medo nunca havia sido tão grotesco e minha reza (nem sei se realmente rezei) nunca havia sido tão sincera. Eu só conseguia pensar nela, em seus gritos que me doíam a alma, em seu corpo que padecia e em mim, que seria a próxima vítima. Não sabia a que horas ele sairía da escuridão e me jogaria nessa treva, não sabia como me mover e nem conseguia pensar na possibilidade de uma 'trégua'. Dos meus olhos transbordavam lágrimas, minhas mãos tremiam, meu pés se cravavam no chão... e eu sentia. Ele estava se aproximando, sua respiração movimentava meus cabelos, o silêncio da menina me atormentava ainda mais e quando apertei meus olhos para sentir tal dor, ouvi uma voz dizer em alto e bom som "Congela!". Fim da cena, fim da improvisação. Fim da aula. Mas não foi o fim do meu medo e das minhas dores.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Cubículo de Um Dia

Quarto escuro, ele nunca esteve tão apertado, tão sufocador, tão angustiantemente bom. Estou sentada, encolhida no canto da cama, abraçando minhas pernas, enrolada na coberta, cheirando meu travesseiro e olhando para o nada.
Minha pupila está dilatada procurando alguma esperança em meio a esse caos. Sim, estou diante de um caos. Minha cabeça está a mil, minhas mãos tremem, meus dedos dos pés se recolhem e uma lágrima corre minha face. Olhos inchados, começo a roer as unhas.
Penso em tudo que fiz no dia, na semana, no mês, na minha vida. O que me levou a isso? O que me deixou assim? O que me despertou tal sentimento? Procuro algum outro suspiro que não seja o meu, mas não encontro. Estou sozinha e dessa vez não é uma solidão qualquer, não é a solidão que tanto gosto, dessa vez é um abandono no qual eu abandonei e também fui a abandonada.
Estou com medo, ensaio para que algum som saia de mim. Com uma voz trêmula e fraca, grito:
- Mãe! Mãe!
Mas não há ninguém em casa, não para mim, não para meus sentimentos.
Olho novamente o quarto buscando qualquer luz, qualquer coisa que me tire dessa situação e encontro algo que pudesse me distrair... lá no canto, encostada na parede está a minha infância, me observando, rindo de mim, de como já fui feliz... boba.
Entro em transe com essa criança, com essa memória. Fraca, meus dedos relaxam, minha boca se abre, meus braços se soltam das pernas, meus olhos lentamente se fecham e escorregando caio na cama, preparada para meus sonhos. Foi o fim de mais um dia.

terça-feira, 2 de março de 2010

Irmandade

Há um tempo minha irmã pediu que eu fizesse um texto sobre ela. Sinto em dizer que jamais o farei, tanto por não saber de que maneira, como por saber que palavras apenas não são suficientes. Pensando no assunto, ousei traçar em minha mente uma 'linha do tempo' com tudo o que vivemos.
Lembrei de brigas. Várias e várias brigas que tivemos e o quanto rimos depois das mesmas. O quanto já judiamos da nossa prima e o tanto de teatrinhos e brincadeiras que fizemos na infância. Uma nostalgia me toma nesse momento. E nem as frases como "Eu queria uma irmã, mas não essa", faz diminuir minha admiração por ela.
Por 'culpa' dela me liguei às artes, me divertia ao voltar do curso e comecei a gostar da banda Nirvana, por exemplo. É meu exemplo de profissional, de amiga, de delicadeza e serenidade. Uma pena ser tão boba, tão boa e inocente. Vivemos num mundo em que gente assim só se dá mal, sobrevivência, minha cara.
Lembro de como (ainda) nos arrependemos de ter mudado de São Paulo, como ela esnoba por ter um autógrafo do Faíska e como omite ter um da Xuxa. Lembro das brincadeiras na casa da vó, de quando tentou me ensinar violino e eu ensiná-la piano. Lembro de como me ajudava a decorar textos para o teatro e como a ajudei a estudar literatura. Lembro das nossas tardes no clube, de como rimos do priminho gay da Jú e como choramos com a morte do Niél. Lembro de como nos divertíamos no trabalho voluntário e como foi triste quando mudou de escola.
Crescemos como carne e unha e por mais que essa unha tenha 'descolado', o DNA ainda está presnte. Somente oito horas de viagem nos separa, mas parece que é tão mais longe...
Nossas conversas 'via internet' são péssimas. É difícil uma entender a intenção da 'fala' da outra, afinal, nossos olhares sempre valeram mais que palavras.
Sei que o sucesso te espera, minha irmã, há um tempo você já está colhendo o que plantou. Sinto agora uma certa felicidade, uma saudade e um cheiro de bolo de cenoura (como aquele que sempre tentamos fazer e nunca deu certo).
Lembro de tantas e tantas coisas, que seria impossível listá-las. Não sei até onde essas lembranças podem me levar, então direi apenas que fico contente em saber que por mais que já tenhamos tido várias discussões, agressões físicas (crianças.. rs) e impasses, ainda somos cúmplices, melhores amigas e formamos (com excelência) essa irmandade.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Banquete Particular

Está serenando, um frio agradável toma todos os lugares. Dentro de casa, apenas um cômodo está iluminado. Na vitrola toca um tango. Mesa posta. Muitos dos convidados já chegaram.
Em poucos instantes estarei pronta e irei recebê-los.
Passo um perfume, coloco meu melhor vestido e desço aquelas longas escadas. Há tempos não me sentia tão bem, tão renovada, um pouco receiosa, mas querida.
Com um leve sorriso os comprimento. O escuro ainda reina na casa. A luz fraca da copa mal deixa eu visualizar os rostos. Minha cadeira está na ponta da mesa. Sento. Olho todo aquele banquete, entro em êxtase com aquela sensação de bem estar.
Coloco um pouco de comida em minha boca. Fecho meus olhos. Sinto o tempero, me delicío com a pimenta que levemente arde minha língua. Abro meus olhos, olho novamente para os convidados: a Consciência (minha melhor amiga) está ao meu lado direito, sempre atenta a todos; a Esperança, já está sonhando com a sobremesa; o Conhecimento, analisa todos os meus gestos; o Ódio me olha fixamente; a Alegria, ainda com os olhos fechados, sente o sabor do jantar; a Futilidade, analisa o tom das cores que compõem a mesa; a Imaginação, sorri ao ouvir o belo tango; o Desejo, encara o Ódio e a Imaginação, sempre com seu meio sorriso; a Beleza é a mais distante de mim, mas me olha com ternura e ao lado dela há uma cadeira vazia, como sempre... faltou Amor.
Respiro fundo, sorrio, abro minha boca, tenho que tratar de começar o assunto. Está na hora de conversar comigo mesma.